MÃE!

10.05.2018

                               
                                   

 

 

O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o 
 pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente, na manhã de sol. 
                                    
Foi então que chegou a Mãe (esta crônica é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short, e mais ainda em seu maiô. Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear — e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava 
muito longe e o mar estava muito forte. 
                                    
Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. 


Então a Mãe começou a folhear a revista mundana — "que vestido 
horroroso o da Marieta neste coquetel" — "que presente de casamento 
vamos dar à Lúcia? tem de ser uma coisa boa" — e outros 
pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas de repente: — Cadê Joãozinho? 
                                    

O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha 
ido em casa apanhar uma bola maior. 
 — Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta! 
                                    

O pai (fica em minúscula; o Dia é da Mãe) achou que não era preciso: 

— O menino tem OITO anos, Maria! 
— OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre 
gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse! 
                                    

E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho. 

 — Bem, eu vou lá só para você não ficar assustada. 
                                    

Talvez a sombra do medo tivesse ganho também o coração do 
pai; mas quando ele se levantou e calçou a alpercata para atravessar os vinte metros de areia fofa e escaldante que o separavam da calçada, o garoto apareceu correndo alegremente com uma 
bola vermelha na mão, e a paz voltou a reinar sobre a face da praia. 
                                    

Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos 
de uma festa a que fora na véspera, e o casal ouvia, muito interessado

— "mas a Niquinha com o coronel? não é possível!"

— quando a Mãe se ergueu de repente: 
— E o Joãozinho? 
                                    
Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo — "deve estar por aí", a Mãe gradativamente nervosa — "mas por aí, onde?" — o amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro da água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe. 
                                    
— Joãozinho! 

O pai levantou-se, foi lá, não era. Mas conseguiu encontrar o amigo do filho e perguntou por ele.

 — Não sei, eu estava catando conchas, ele estava catando comigo, depois ele sumiu. 
                                    
A Mãe, que viera correndo, interpelou novamente o amigo do filho. "Mas sumiu como? para onde? entrou na água? não sabe? mas que menino pateta!" O garoto, com cara de bobo, e assustado com o interrogatório, se afastava, mas a Mãe foi segurá-lo pelo braço: "Mas diga, menino, ele entrou no mar? como é que você não viu, você não estava com ele? hein? ele entrou no mar?". 
                                    
— Acho que entrou... ou então foi-se embora. 
                                    

 

De pé, lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, 
apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem 
na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E 
como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim — mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta praia mesmo!) — deu 
um grito para as ondas e espumas — "Joãozinho!". 
                                    
Banhistas distraídos foram interrogados — se viram algum 
menino entrando no mar — o pai e o amigo partiram para um 
lado e outro da praia, a Mãe ficou ali, trêmula, nada mais 
existia para ela, sua casa e família, o marido, os bailes, os Nunes, 
tudo era ridículo e odioso, toda essa gente estúpida na 
praia que não sabia de seu filho, todos eram culpados — 
"Joãozinho !" — ela mesma não tinha mais nome nem era 
mulher, era um bicho ferido, trêmulo, mas terrível, traído no mais 
essencial de seu ser, cheia de pânico e de ódio, capaz de tudo — 
"Joãozinho !" — ele apareceu bem perto, trazendo na mão um sorvete que fora comprar. Quase jogou longe o sorvete do menino com 
um tapa, mandou que ele ficasse sentado ali, se saísse um passo 
iria ver, ia apanhar muito, menino desgraçado! 
                                    
O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia 
com o dedo grande do pé, e quando sentiu que a tempestade estava passando fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direção dos pais: 
                                    

 

 

— Mãe é chaaata... 
                                    
Maio, 1953 

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